Eloi Veit

TÉCNICA NÃO É CIÊNCIA.

Confundir ciência com técnica é um erro.

Observe um barco que flutua nas ondas do mar. Façamos as seguintes perguntas: Quanto de ciência ele contem? E quanto de técnica? Tu certamente ficarias surpreso se te dissessem que ele contém muito pouco de ciência e muita técnica. Ambas são conhecimentos humanos que, juntadas aos meios materiais, construíram o barco.
Os que o fabricaram utilizaram, necessariamente e no mínimo, as regras da aritmética e da geometria. Mas é tudo o que fizeram? Não, necessitaram imaginá-lo, concebê-lo, projetá-lo e recolher na natureza os materiais de que se compõem. Depois disso precisaram usar de técnicas para amoldar os elementos materiais entre si conforme o projeto.
A pergunta que quero deixar em evidência é: quanto de ciência e quanto de técnica foi usada na fabricação do barco? Para esclarecer isso é necessário entender-se o que seja ciência e o que seja técnica; sem isto não se pode ter ideia da resposta.
A primeira consideração importante é que as regras de aritmética e de geometria utilizadas na construção são ideias universais, existem como absolutos necessários e servem para qualquer barco; sem elas ninguém no mundo constrói um barco que preste. As outras coisas que o construtor imaginou, tais como tamanho, cor, materiais e suas exatas dimensões, etc… Só servem para aquele barco em particular, pois dizem respeito exatamente ao seu projeto.
Este exemplo mostra que o ser humano é capaz de realizar o prodígio de unir ideias universais a elementos naturais e segundo o seu desejo. Como no caso; o desejo de construir um barco necessitou a utilização de conhecimentos de duas ordens: conhecimento científico e conhecimento prático, técnico.
Do lado prático utilizou técnica, isto quer dizer: utilizou relações entre os entes que compõem o conjunto segundo uma intenção. Estas não têm entre si relações de necessidade universais, mas sim relações de utilidade, conformes ao o projeto.
Por outro lado, necessitou utilizar-se de ideias universais, no caso, aritmética e geometria; este conhecimento sim tem a característica de ser composto por relações de necessidade absolutas e não intencionais e segundo um projeto humano. Eis aí a diferença entre ciência e técnica.
A ciência busca encontrar as relações de necessidade entre entes da realidade que em si e por si são necessárias, impostas pela realidade e, portanto, segundo a realidade mesma.
A técnica busca encontrar relações de necessidade entre entes da realidade segundo um plano, um projeto humano. Eles de si e entre si não têm relação universal necessária alguma.
Por isto é necessário entender que técnica é aquela atividade que ajunta entes da natureza segundo um plano humano e ciência é aquela atividade que busca encontrar na realidade entes que tem relações necessárias entre si e que são universais. Não se inventam relações universais, se as descobre.
A dificuldade que temos de encontrar a relações de necessidade entre entes da realidade e que sejam universais é imensa. No entanto, encontrar relações de necessidade segundo um projeto humano é apenas questão de inventividade.
O que verdadeiramente avança na história humana é o conjunto de técnicas. Elas, idealmente, visam, em última instância, instalar o ser humano o mais confortavelmente na natureza.
Portanto, devemos desconfiar do uso indiscriminado da expressão ciência, pois ela tem um prestigio imenso entre os humanos e, por isso mesmo, é utilizada em profusão por aqueles que na verdade não são cientistas, são técnicos.
O prestigio da palavra ciência tem se afirmado não pelo que realmente se fez por ela, mas pelo uso que se faz dela.

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