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Moll Flanders – literatura e uma análise econômica do crime

Terminei há pouco de ler o livro Moll Flanders. Não me lembro bem de onde extraí a dica para comprá-lo. Só encontrei em sebo. É mais um daqueles livros que nos dão muito para refletir.

O autor, Daniel Defoe, mais conhecido pelo Robinson Crusoé, viveu entre os séculos 17 e 18, o livro foi escrito em 1722 e conta a história da personagem cujo nome não é revelado, mas passa a ser conhecida como Moll Flanders, apelido de guerra que ela adotou ao entrar para a vida do crime.

A história de vida de Moll é contada, em primeira pessoa, desde o seu nascimento na prisão de Newgate, na Inglaterra, até praticamente a sua morte. A personagem tem uma vida ao mesmo tempo desgraçada e permeada de muita sorte. Já no começo da vida adulta e viúva, com medo da miséria, ela embarca numa viagem delinquencial que começa com pequenos delitos contra o patrimônio, entremeada de promiscuidade e prostituição, entre 5 casamentos por interesse e abandono de todos os filhos que teve.

Em alguns momentos, em que a sua corrupção se torna muito evidente, ela me lembrou Dorian Grey, de Oscar Wilde, muito embora não fizesse o mal pelo prazer de fazer o mal ou para ver a que ponto sua torpeza poderia chegar e como isso afetaria a sua alma, ou a sua imagem no retrato, o que a difere de Dorian. Em outros momentos, quando vai praticando os crimes com muita naturalidade, lembra Gil Blas de Santillana, de Alain-René Lesage. Porém, o que a difere de Gil Blas é que este não fazia nenhum juízo de valor sobre os atos que praticava, não demonstrava nenhum arrependimento, apenas era levado pelas circunstâncias. Moll, no entanto, tem algumas crises de consciência, repreende-se e entende que faz o mal, muitas vezes, a pessoas indefesas e que sofrerão muito com as consequências das perdas que ela lhes impõe.

Mas de quem mais me lembrei ao ler este livro foi do Professor Pery Shikida, especialista em Análise Econômica do Crime, pois a obra retrata exatamente o que as suas pesquisas em penitenciárias demonstraram, ou seja, a análise custo x benefício feita pelo criminoso e alguns dos sentimentos que movem o delinquente para praticar o crime econômico: ganância, o lucro fácil e a alta probabilidade de não ser punido, ou seja, a escolha racional de praticar o delito. Moll se aprofunda em sua vida delituosa porque tem muita sorte e astúcia para não ser pega e quanto maior o sucesso de suas empreitadas, mas se torna orgulhosa de sua competência, chegando a reconhecer que o crime se tornou um vício. Esses também se tornaram os incentivos de Moll Flanders: “Porquanto, ainda que com este golpe eu tenha me tornado consideravelmente mais rica, a resolução que tinha tomado de parar com esta horrível atividade, tão logo eu tivesse um pouco mais, não me voltou ao espírito. Eu queria possuir ainda mais. A avareza se casou com o sucesso para não mais me permitir mudar de vida, ainda que, sem isso, eu não pudesse esperar segurança e nem tranquilidade no usufruto do que havia tão perniciosamente ganho, “Mais, eu preciso de mais”, era sempre o refrão.”

Com o tempo, a cada novo crime terrível praticado, Moll tece uma lista de justificativas, numa espécie de auto-engano, chegando até mesmo culpar as vítimas, de diversas maneiras, e o medo da potencial miséria, tal como se vê com frequência na atualidade, na defesa das “pobres vítimas da sociedade”, sua excelência o bandido. Poucas vezes Moll pensou em trabalhar honestamente para se sustentar, embora tivesse muitos talentos. Chegou a fazer trabalhos de costura, mas o crime a chamava e ela não resistia.

No final da obra, novamente as conclusões do Professor Shikida são confirmadas quando ele conclui que a religião é um importante fator para impedir a reincidência.

Moll se redime quando é presa e condenada à morte. Na prisão, ela tem um encontro com um bondoso padre, confrontada com o peso de suas escolhas pretéritas, ela se arrepende, confessa-lhe tudo. Agraciada com um degredo no lugar da morte, resolve mudar de vida, vai para o novo mundo onde tem um recomeço com um dos antigos maridos, também criminoso arrependido e convertido, e com um dos filhos que ali reencontra. Essa mudança de rumo lembra o jovem revolucionário Ródia Raskolnikóv, de Dostoiévski, a resolução de ambos de abandonar a vida anterior reforça a ideia de que não é a prisão que reeduca e essa não é a sua função, é o arrependimento verdadeiro que leva à redenção. Além disso, ambos os personagens têm o seu encontro com Deus, dentro do cárcere.

No final da vida, Moll volta para a Inglaterra e assim o livro se encerra: “Ele virá também para a Inglaterra, onde decidimos passar o resto de nossos dias, numa sincera penitência pela má vida que vivemos.”

Uma delícia de livro. Fica a dica.

Se quiser saber mais sobre o livro, ouça a aula do Professor José Monir Nasser, no Youtube:

 

http://www.revistas2.uepg.br/index.php/sociais/article/view/6029

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Cláudia Morais Piovezan

Graduada em Direito pela Universidade Estadual de Londrina; Mestre em Direito Comparado e Ambiental pela Universidade da Flórida, Gainesville-FL; Idealizadora e organizadora do Fórum Educação, Direito e Alta Cultura; Aluna do Curso On line de Filosofia; Promotora de Justiça da Comarca de Londrina, no Estado do Paraná.

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