Cláudia Piovezan

A Venezuela, as drogas e 50 tons de vermelho

Terça-feira foi dia de audiência de custódia. Dentre os indivíduos que foram apresentados, havia um que estava preso por furto no restaurante popular, mantido pela Prefeitura de Londrina, que vende refeições com preço baixo para a população mais pobre.

O sujeito, com aparência de ter mais de 40 anos, disse que tinha 22 e que era usuário de crack desde os 19 anos de idade. Quando lhe eram feitas perguntas com as quais ele já concordava de pronto, respondia: “Verdade”!!, com aquela entonação típica de quem já está bem comprometido ou com a criminalidade ou com a droga ou com ambos. Ele lembrava aquele personagem do programa de humor A Praça é Nossa, do SBT, o Patropi, mas em câmera lenta e fala menos articulada.

Quando eu voltava de Portugal, assisti no avião a um filme chamado Beautiful boy, que conta a história de uma família que sofre com um filho viciado em drogas. Ao longo da história, descobre-se que o pai do garoto era um escritor famoso, aqueles tipos do beautiful people do Leblon a que estamos acostumados. Em determinado momento, o pai é convidado pelo filho adolescente para fumarem maconha juntos e acaba cedendo. Para convencê-lo, o filho lhe disse que sabia que ele “dava um tapinha” de vez em quando, o que ele confirmou com um risinho maroto e nostálgico, dizendo que usou muita droga quando era jovem, agora só fumava de vez em quando para dar uma relaxada. O menino vai ao fundo do poço e leva toda a família junto.

Há alguns dias, assisti a um outro filme, com Julia Roberts, chamado Ben is back, que conta a história de outra família que tem um filho viciado. O garoto teve um problema de saúde, um médico lhe prescreveu fortes analgésicos e ele acabou se viciando, passando para outras drogas mais pesadas. Mais uma tragédia familiar relacionada ao consumo de drogas.

Daí eu vejo um ministro do Supremo Tribunal Federal e um ex-presidente da República defendendo a liberação de drogas como se fosse igual ou até mais saudável do que beber um refri no almoço. É só liberar a maconha e todos os nossos problemas estarão resolvidos.

Outro dia, rodava pela internet uma entrevista da rainha dos baixinhos, Xuxa, na qual ela contava que a Sasha a convidava para fumar maconha. Rodava também a entrevista de Dráuzio Varela, no Globo, na qual afirma que é preciso descriminalizar a maconha para acabar com o preconceito.

https://oglobo.globo.com/saber-viver/todo-preconceito-social-foi-jogado-na-maconha-diz-medico-drauzio-varella-23638719

Fiquei pensando sobre esses “intelectuais” que sempre tem a “resposta certa” para tudo. Deve ser muito bom fazer parte dessa casta de iluminados, que nasce com esse incrível talento e missão para guiar a humanidade e nunca ter de responder à sua própria consciência ou a terceiros pelas péssimas consequências da difusão de suas ideias, afinal, em nome da ideologia tudo é permitido. Os fins justificam os meios.

O Rio de Janeiro é a vitrine desse romantismo drogadito dos iluminados que querem a todo custo expandir esse modelo para resto do país.

No Brasil, morrem cerca de 60.000 pessoas por ano, grande parte delas por conta de disputas entre traficantes. Se houve uma época em que as mortes eram causadas por motivos variados, inerentes aos conflitos humanos, hoje a maior causa dos assassinatos está relacionado ao narcotráfico, inclusive, a grande maioria dos crimes de rua estão relacionados ao tráfico e ao consumo de drogas. Somos reféns das drogas, numa paleta diversificada de cores.

Seria então uma boa saída liberar a venda e o consumo de drogas para acabar com a criminalidade, já que a tal guerra às drogas não deu certo e custa muito caro? Bem, você concordaria em interromper as pesquisas sobre o câncer já que não se chegou ao tratamento definitivo e os custos de pesquisa e de tratamento de pacientes são muito altos? E que tal revogar a Lei Maria da Penha diante das estatísticas crescentes de violência doméstica e assassinato de mulheres?

Luciano Coutinho escreveu um ilvro excepcional, Hugo Chavez, O espectro, sobre o regime ditatorial de Hugo Chavez e a sua ligação estreita com o tráfico de drogas, mostrando como o regime socialista da Venezuela está sendo financiado pelo narcotráfico, apoiado pela esquerda mundial. Na verdade, há uma verdadeira simbiose entre o narcotráfico e o regime bolivariano de Chavez e Maduro, que se expandiu pela América Latina.

Da mesma forma, essa ligação estreita entre a disseminação de drogas no ocidente e o socialismo, que se estabeleceu por meio do treinamento de organizações criminosas latino-americanas pela antiga KGB, está retratada na obra Red Cocaine, The drugging of America and West, de Joseph Douglass, que narra como se iniciou a operação dos serviços secretos soviético e chinês, primeiro para estudar os efeitos de variadas drogas nos indivíduos e depois para inundar o ocidente de drogas para destruir o tecido social na Europa e nas Américas. Segundo Luciano Coutinho e Ion Mihai Pacepa, em seu livro Desinformação, nessa operação foram ainda recrutados terroristas árabes e governos totalitários latinos e árabes.

Na mesma terça-feira, assistimos às imagens dos militares bolivarianos passando por cima dos cidadãos venezuelanos com tanques de guerra, o exército do narcotráfico em ação, assegurado por um estado ditatorial amado pelas esquerdas.

Não nos esqueçamos e não relativizemos: Todos que defenderam e defendem traficantes, consumo livre de drogas e regimes socialistas têm ali, nessa tragédia, a sua digital e geralmente são os mesmos que adoram gritar slogans em defesa da democracia, da justiça social, da igualdade, adoram propagar seu amor à humanidade e seu monopólio da virtude, e bradar que a droga deve ser liberada – meu corpo, minhas regras – coisas do gênero, mas nunca aparecem para atender uma família ou um indivíduo destruídos pelos efeitos devastadores das drogas na vida real.

Para concluir, vou contar um caso, sem poder me ater à ordem cronológica e às minúcias dos fatos porque já passou muito tempo.

Nos meus primeiros anos trabalhando em Londrina, eu comecei a receber inquéritos e processos de um rapaz, de uma boa condição financeira, filho de empresários, que começou a delinquir praticando atos de violência, ora contra a namorada, ora contra a mãe, ora contra o pai, sempre “justificado” pelo uso de drogas. Os delitos de menor potencial ofensivo foram se acumulando até que ele acabou preso. Passado o alívio imediato que a prisão sempre dá nesses casos, a família bateu à minha porta e à porta do juiz pedindo para o soltarmos, alegando que ele seria levado para um tratamento. Eu não concordei, confesso que não acreditei na vontade de recuperação do moço, já imaginando que em liberdade a tragédia teria continuidade. O juiz se compadeceu e o soltou. Em pouco tempo, o rapaz fugiu e se afundou novamente nas drogas. Passado algum tempo, chegou um novo processo. Ele já tinha sido colocado para fora de casa. Aproveitando-se de que os pais não estavam na empresa, chegou lá, limpou o caixa, enfrentando os funcionários, totalmente enlouquecido pelo efeito da droga. Sabendo que o pai tinha ido buscar um carro novo na concessionária, foi para a casa da família e ao avistar o carro novo na garagem, pulou o muro, invadiu a residência e começou uma discussão com a mãe exigindo dinheiro para pagar dívidas com traficantes. Vendo que a discussão se agravava, o pai, que acabara de fazer uma cirurgia, tinha um tubo no pescoço e não falava, interveio tentando segurá-lo. O moço atacou o pai, depois de agredi-lo de diversas formas e dominá-lo no chão, agarrou-o pela garganta, de maneira a impedir a entrada de ar no tubo e quase o matou. Depois, foi para a garagem e, com um objeto, bateu e riscou o carro novo até destruir toda a sua lataria. Quando percebeu que a polícia estava chegando, acionada pela vizinhança, pulou o muro e fugiu.

Depois de algum tempo, um policial que trabalhava no Fórum me pediu para receber a mãe do rapaz. Ela estava em desespero e queria que eu autorizasse o policial, que era amigo da família, a pegar o rapaz contra a vontade e levá-lo para uma clínica particular para tratamento, no estado de São Paulo. Eu disse que infelizmente não possuía autoridade legal para tanto. Senti muita pena e nunca me esqueci deles.

Roger Scruton, em seu livro As vantagens de pessimismo, afirma que o pessimista sempre analisa todas as possíveis consequências de novas ideias e, não sendo capaz de garantir um bom resultado, ou não tendo controle sobre os possíveis resultados ou sem poder imaginar acidentes de percurso, prefere se manter agarrado às antigas ideias que deram certo, sem se arriscar a provocar uma tragédia. O otimista, por outro lado, sempre imagina que tudo vai dar certo, sem aceitar a possibilidade de erros ou de consequências indesejadas. O otimista, confiante em suas ideias, conta com o sucesso sempre, arrisca-se e não se responsabiliza pelas consequências danosas. O pessimista é o conservador e o otimista é o progressista esquerdista, é o orgulhoso revolucionário.

Se você tem ou já teve um dependente químico em sua família ou alguém muito próximo, provavelmente sabe do que estou falando. Eu tenho. Logo, não tenho preconceito com relação a drogas, eu tenho mesmo é o conceito. Gostaria de viver na abstração ideológica e otimista do Dr. Varela ou no mundinho encantado da Xuxa, mas prefiro mesmo é ver a realidade das dezenas de milhares de mortos e das centenas de milhares de vidas desperdiçadas e das famílias que sofrem sem nenhuma espécie de apoio.

Nada de bom pode sair da liberação formal das drogas, já temos uma boa amostra informal de como é. Sugiro que a verdadeira guerra contra as drogas comece e comece imediatamente. A reforma proposta pelo Ministro Moro ainda é tímida, mas é um começo.

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O outro lado é a Venezuelização do Brasil. Estado bandido, povo massacrado, com paleta diversificada de tons de vermelho.

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Cláudia Morais Piovezan

Graduada em Direito pela Universidade Estadual de Londrina; Mestre em Direito Comparado e Ambiental pela Universidade da Flórida, Gainesville-FL; Idealizadora e organizadora do Fórum Educação, Direito e Alta Cultura; Aluna do Curso On line de Filosofia; Promotora de Justiça da Comarca de Londrina, no Estado do Paraná.

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