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A resistência das universidades e a escolha dos novos reitores – o que esperar de listas tríplices

Há poucos dias cheguei de Portugal, terra dos meus ancestrais, onde passei duas semanas conhecendo um pouco daquele pequeno país e valoroso povo. Não tem como não se impressionar e se emocionar com a História de Portugal, que também é a História do Brasil, tão bem preservada em seus monumentos, igrejas, castelos, mosteiros, conventos, ruas e avenidas. Para entender isso um pouquinho, sugiro assistir a série do Brasil Paralelo, A última cruzada, em especial o episódio A cruz e a espada1.

Visitei rapidamente a cidade de Coimbra, percorri suas ruas centrais e alguns prédios da famosa Universidade de Coimbra, uma das mais antigas no conceito moderno, fundada no século XIII em Lisboa e transferida no século XVI para aquela cidade2. Logicamente, tive de conhecer a famosa Biblioteca Joanina, de uma beleza ímpar.

No entanto, fiquei entristecida ao percorrer as ruas no entorno dos prédios universitários, cheias de pichações com palavras de ordens, slogans e propaganda política de viés revolucionário, cartazes com conteúdo ideológico e, logicamente, não poderiam faltar folhetos colados nas paredes com campanha #elenão, que tão bem conhecemos.

Pintados na parede externa do Departamento de Matemática e outras ciências exatas, estavam alguns objetivos da instituição, e por último, como que recentemente acrescido, estava a inclusão. Nos cartazes de eventos promovidos pelos mais diversos centros, tal como aqui, constatei que a pauta é sempre a mesma, ideologia de gênero, feminismo, etc… E não faltou faixa em apoio ao governo cubano. Pelas ruelas onde possivelmente se encontram as repúblicas de estudantes, há toda sorte de pichações e grafitagem enfeando a antiga e bela cidade medieval, mas nada que se compare com o estado de degradação das universidades brasileiras.

Diante daquele monumento que é a Universidade de Coimbra, em especial para nós, brasileiros, lembrando que nos séculos passados, os filhos da elite eram mandados pelos pais para estudar em Coimbra, lembrei-me das universidades brasileiras, que há muito tempo deixaram de buscar o conhecimento e de estimular a pesquisa de temas relevantes para todos e se tornaram verdadeiros comitês dos partidos comunistas e fortalezas intransponíveis para a tolerância e para a lei e a ordem. Os atos de barbárie que acontecem dentro das universidades públicas, em especial nas áreas de humanas, são diários e inesgotáveis e foram bem descritos e catalogados por Flávio Gordon em seu livro A Corrupção Da Inteligência, os intelectuais e o poder no Brasil, da Editora Record.


Cientes de toda essa corrosão em nossa educação, os olhos dos brasileiros se voltaram para as escolas e universidades e o Ministério da Educação se tornou um campo de batalha, o que já era esperado.

Finda a campanha eleitoral, surgiu o slogan da esquerda globalista: se fere a nossa existência, seremos a resistência3. E ela realmente está acontecendo, em especial nos órgãos de imprensa e nas universidades públicas. A Gazeta do Povo noticiou que a resistência já começou nas universidades federais, nas eleições para escolha dos próximos reitores. Segundo o jornalista da Gazeta, estariam ocorrendo manobras para burlar a legislação que trata da escolha dos reitores pelo Presidente da República, que é feita mediante apresentação de lista tríplice, conforme a Lei 9.192/954.

https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/universidades-usam-laranjas-para-desafiar-o-mec-na-lista-triplice-para-reitor/?utm_source=facebook&utm_medium=midia-social&utm_campaign=gazeta-do-povo

Sem entrar no mérito da alegada burla nas universidades, eu conheço um pouco desse sistema de escolha por meio de lista tríplice porque é desta forma que é feita a escolha da chefia do Ministério Público Estadual. Acompanho as eleições no parquet paranaense desde 1998, bianualmente, e entendo que ainda que realizado o processo dentro da mais estreita legalidade na instituição, a formação dessa lista tríplice sempre possibilita a manutenção do grupo que está no poder, de acordo com os interesses que estão em jogo.

No Ministério Público funciona mais ou menos assim, o grupo governante, caso haja um ou mais outsider inscrito, forma uma chapa com três candidatos, nomes fortes com grande capacidade de ganhar votos em razão do carisma dentre os pares e/ou em razão de boa articulação política (expressão do momento nos corredores de Brasília) com o Governador, a quem a lista é dirigida, e com a cúpula do legislativo estadual, a quem o nome é submetido para aprovação, após a escolha do Governador (art. 116, da Constituição do Paraná)5.

Em todos os 11 pleitos a que assisti, ao fim e ao cabo, o que decidiu a escolhe dos nomes que formavam a lista tríplice quase sempre, talvez com uma ou duas exceções, foi quem seria o mais capaz de conseguir negociar o orçamento da instituição com os poderes legislativo e executivo, para garantir a manutenção e, se possível, o crescimento da instituição (Embaixador Meira Penna revira no caixão) e o salário dos seus membros e servidores. E o mote da campanha sempre tem sido o de que o grupo que está exercendo a chefia é o mais capacitado, experiente e mais bem articulado perante as autoridades que mandam no cofre. Ou seja, praticamente impossível haver alguma mudança, inclusive no viés ideológico da chefia da instituição. Os insatisfeitos até tentam, vez ou outra, formar a sua chapa para tentar penetrar a lista tríplice, mas ainda que consigam nela figurar, pelas razões já apresentadas, não têm chance de serem escolhidos pelos poderes políticos, já que não têm a tal articulação e trânsito livre nos corredores palacianos. Nem vou mencionar as consequências desse sistema.

Refletindo sobre o artigo da Gazeta do Povo, lista tríplice dos reitores e do Ministério Público nesta manhã, uma frase me veio à mente: Onde está o seu tesouro, aí estará o seu coração, que a minha mãe me dizia nos momentos de angústia. Trata-se, pois, de um versículo da Bíblia: “Não ajuntei para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem, e onde os ladrões minam e roubam. Mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde a nem a traça e nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não irrompem nem roubam, pois onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. Mateus 6:19-2.

Com essa reflexão, eu entendi onde está o coração ministerial.

Mas onde está o coração dos que comandam as universidades? Onde está o coração de docentes e reitores quando entregam aos jovens esses locais sombrios, onde se tem visto muita destruição e perversão? Esses reitores e militantes estarão preocupados com a melhoria da qualidade do ensino e da formação moral e intelectual dos estudantes, ou não se importarão com a favelização dos campi, caso tenham suas verbas reduzidas, e com a estupidificação dos estudantes, que estão sendo adestrados para até degolar os pais se for preciso, desde que estejam lutando pela sua ideologia e por seu partido?

Alguém acha que a escolha será aderir às propostas do novo governo, escolhido pela maioria dos eleitores, e devolver alguma dignidade à instituição e quiçá lhe devolver o seu objetivo inicial, que era a busca da verdade, do bem e do belo? Eu tenho o meu palpite. Onde está o seu tesouro … Quem não se lembra do apoio de vários reitores das federais à Dilma Roussef e Haddad?

https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,dilma-recebe-apoio-de-54-dos-58-reitores-das-federais,1558626

Vinte reitores e ex-reitores de universidades federais declaram apoio a Haddad

1https://www.youtube.com/watch?v=TkOlAKE7xqY&list=PL0tr_msPIlG4M4tDBRgYb3kh7ZmpL-3C2

2https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_das_universidades_mais_antigas_do_mundo

3https://jornalistaslivres.org/se-fere-a-nossa-existencia-seremos-resistencia-venha-ser-um-jornalista-livre/

4http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9192.htm

5Art. 116. O Ministério Público tem por chefe o Procurador-Geral de Justiça, nomeado pelo Governador do Estado, após a aprovação da Assembleia Legislativa, dentre os integrantes da carreira, indicados em lista tríplice elaborada, na forma da lei, por todos os seus membros, para mandato de dois anos, permitida uma recondução, em que se observará o mesmo processo.
(vide ADIN 2319)

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Cláudia Morais Piovezan

Graduada em Direito pela Universidade Estadual de Londrina; Mestre em Direito Comparado e Ambiental pela Universidade da Flórida, Gainesville-FL; Idealizadora e organizadora do Fórum Educação, Direito e Alta Cultura; Aluna do Curso On line de Filosofia; Promotora de Justiça da Comarca de Londrina, no Estado do Paraná.

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