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A reforma de Dória e a incultura brasileira

O professor Olavo de Carvalho publicou em sua conta do Twitter, no dia 01 de abril deste ano de 2019, que “O mal do Brasil é a elite mais inculta e presunçosa do universo.”

A postagem do professor ressoou em algo que tenho pensado há alguns dias sobre a pobreza cultural brasileira, e não tenho a presunção de me excluir disso. Nessa tragédia somos todos vítimas e culpados.

Em minha recente viagem a Portugal, certa noite, em um pequeno restaurante da cidade do Porto, estávamos eu e meu marido aguardando para sermos atendidos quando se sentaram ao nosso lado dois casais de brasileiros. Diante da proximidade da mesa, impossível não ouvir certos trechos da conversa e por isso pudemos entender que se tratava de um casal que reside no Brasil se encontrando com um casal de amigos que reside em Portugal. Ao longo da descontraída conversa, a esposa que mora no Brasil contou entre gargalhadas e caretas de indignação que o marido a obrigara a ficar um longo tempo percorrendo o Museu do Louvre, em Paris, o que ela sozinha faria em 40 minutos. Em seguida, contou que foram ao Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, porque o marido queria ver o túmulo de Camões e de Vasco da Gama, que se encontram na igreja do mosteiro. Disse ela: “Quem quer ver o túmulo de Vasco da Gama? Só sendo um torcedor vascaíno para querer ver o túmulo de Vasco da Gama!!” Mas a conversa seguiu, ela narrou, com indignação, que durante a visita à cidade de Fátima, o marido quis ver um fragmento do Muro de Berlim que se encontra no santuário. Nesse ponto, o marido, pacientemente, passou a narrar para os amigos por que se interessou pelo fragmento, esclarecendo que a queda do Muro teria relação com as revelações de Nossa Senhora, em Fátima.

https://www.cmjornal.pt/sociedade/detalhe/fragmento_do_muro_de_berlim_no_santuario_de_fatima

Essa conversa que presenciamos involuntariamente me lembrou de uma resposta que o Professor Olavo deu a um aluno que lhe perguntou como agir com a esposa que implicava com seus estudos e com a família que queria convencê-lo a se satisfazer com um emprego público, devendo seus estudos se restringirem ao ponto de ser aprovado em um concurso e obter um emprego estável.

De volta ao Brasil, já nos primeiros dias, eu me deparei com as notícias e fotos referentes à reforma que o Governador João Dória realizou na sede do governo paulista, destruindo a beleza da decoração antiga de alguns ambientes. Esse fato me remeteu novamente a Portugal e à visita que fizemos ao prédio do parlamento português, que impressiona pela beleza clássica e pelo zelo na manutenção da decoração antiga, sem arroubos modernistas. A “decoração” de Dória causou alguma indignação nas redes sociais e eu fiquei imaginando qual seria a reação do povo americano se Trump resolvesse redecorar a Casa Branca com o estilo bem conhecido de suas residências, hotéis e edifícios, desprezando a história americana e impondo seu estilo pessoal. O que demonstra a conduta de Dória senão vaidade, presunção, um enorme desprezo pela tradição e história de seu estado e desrespeito por seus antecessores? Os utilitaristas podem dizer que a reforma embrutecedora barateou as obras necessárias, a mim, no entanto, parece que o governador paulista, conhecido por suas relações e ideologia globalistas, está encarnando Luís XIV, o Rei Sol, conhecido pela frase “L´Etat c´est moi”, o que só corrobora com a afirmação do Professor Olavo de que nossa elite é presunçosa e inculta.

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Por isso tudo, o Professor Olavo tem razão ao afirmar que apenas o resgate da cultura pode salvar o Brasil, sendo que eventual mudança de rumos na política seria apenas consequência do aprimoramento cultural.

Com relação ao Dória e à sua reforma, merece uma resposta por meio de uma ação popular, diante do ato lesivo ao patrimônio histórico e cultural. Fica a dica para os paulistas.

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L4717.htm

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Cláudia Morais Piovezan

Graduada em Direito pela Universidade Estadual de Londrina; Mestre em Direito Comparado e Ambiental pela Universidade da Flórida, Gainesville-FL; Idealizadora e organizadora do Fórum Educação, Direito e Alta Cultura; Aluna do Curso On line de Filosofia; Promotora de Justiça da Comarca de Londrina, no Estado do Paraná.

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