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A magnífica Eudóxia de Barros

Resenha sobre recital dado pela pianista no III Festival de Música de Paraguaçu Paulista

Quando eu soube que estaria no mesmo festival de música que a grande pianista brasileira Eudóxia de Barros, meu peito logo se estufou de felicidade e ansiedade. Conheci o trabalho dela através de uma professora de piano clássico que tive entre 2004 e 2008, Evangelina Pauliquevis de Almeida Prado, que foi aluna de Eudóxia. As histórias que ela me contava sobre a professora eram interessantíssimas e ao mesmo tempo terrificantes. A metodologia espartana, com uso preciso do metrônomo em gradual aumento de velocidade a cada compasso, a precisão matemática a que isso conduzia os alunos, me chamava muito a atenção. Usávamos a mesma técnica em nossas aulas, e os resultados eram evidentes. Quando estou estudando saxofone e a peça me parece um pouco mais difícil, saco logo da manga esse artifício extremamente eficaz!

Por conta de uma reforma no Teatro da cidade de Paraguaçu Paulista, sede do festival, os concertos estavam sendo realizados na Igreja Matriz Nossa Senhora da Paz. O recital de Eudóxia seria no mesmo dia em que eu ministrara uma palestra sobre história do Jazz. Quando acabei de proferir meu trabalho, fiquei sabendo que ela estava ensaiando na igreja. Como estava com a agenda livre até a hora do almoço, corri para lá a fim de ver finalmente ao vivo aquele trabalho magistral que eu só conhecia através de relatos apaixonados de quem viu de perto e de vídeos e áudios encontrados na internet.

Quando cheguei ao templo, ouvia-se ruidosamente a reverberação do piano dentro do prédio vazio. Com exceção de uma moça que limpava a igreja, não havia ninguém além de Eudóxia e um velho piano armário conseguido às pressas por empréstimo para a grande noite. O virtuosismo técnico de Eudóxia era evidente, o que dava uma terrível sensação de pequenez diante do infinito representado pela quantidade abismal de notas executadas a cada segundo. E o prédio vazio aumentava ainda mais essa sensação. Imagine uma igreja matriz, com toda sua beleza e suntuosidade sobre humanas, recebendo aquela carga fantástica de alta música e emitindo-a de volta em forma de paz e harmonia!

Sentei-me no primeiro banco, já com os olhos marejados de emoção. Imaginei dois cenários possíveis, um positivo e o outro nem tanto: ou ela me cumprimentaria gentilmente, ou me explusaria do local, pois estava sendo atrapalhada em seu momento de estudos e introspecção musical. Porém, uma terceira opção se revelou, para minha surpresa. Eudóxia não notou minha presença, e olha que fiquei por lá cerca de uma hora! Fotografei, filmei, postei no Instagram, e nada de ser notado! Mas isso não ocorreu por algum tipo de arrogância por parte de Eudóxia, o que confirmei posteriormente, quando tive a oportunidade de conversar com ela e verificar que a alcunha de diva do piano não era em vão, já que a gentileza, a elegância, a nobreza e a erudição estão entranhados naquela diferenciada alma humana. O motivo estava relacionado à hiper concentração de Eudóxia. Piano, partitura e só! Somente naquele dia, ela ensaiou duas horas e meia pela manhã e duas horas e meia no final da tarde, literalmente sem se levantar ou sequer tirar as mãos do teclado se não fosse para virar a página da partitura!

Logo me lembrei dos relatos de minha professora Evangelina, e tudo fez sentido! Disciplina, concentração, seriedade, austeridade. Aos 81 anos de idade, a alta performance da concertista se justificava não por uma espécie de magia da natureza, senão pela forma com que ela realiza sua preparação para o derradeiro momento, o concerto, esse sim extremamente mágico!

À noite, estávamos todos ansiosos para o tão esperado momento. Vestida magistralmente como a dama que é, em um magnífico vestido de cor púrpura, lá estava ela. Tive a honra de abrir o espetáculo anunciando os patrocinadores. Sim, essa rápida participação já me enche de imenso orgulho! Em seguida, o maestro Dante Mantovani, diretor e idealizador do FEMUSPP (Festival de Música de Paraguaçu Paulista), tomou a palavra para explicar ao público a importância do evento. Poucas pessoas sabem que Eudóxia de Barros é uma das maiores pianistas que esse país já viu, especialista no repertório pianístico brasileiro do século XX. Viúva do compositor Osvaldo Lacerda, talvez não haja ninguém nesse país com vivência tão intensa em tal repertório!

O espetáculo foi dividido em duas partes: na primeira, Eudóxia tocou composições clássicas, como uma das Gymnopédies do compositor francês Eric Satie, a famosa Marcha Fúnebre do compositor polonês Frederic Chopin, dentre outras. Na segunda parte, entrou em cena seu repertório tradicional. Foi uma tempestade de música brasileira da mais alta complexidade técnica e do mais alto nível de beleza. Como estava muito frio, nossa diva teve de tocar com um aquecedor próximo ao pedal. Instalar o equipamento exigiu certo jogo de cintura por parte dos organizadores do evento. Para coroar a vitória da civilidade sobre a barbárie, durante uma das músicas a corda de uma das notas Fá estourou, o que obrigou o afinador e dono do piano a entrar em cena. Como não foi possível consertar o defeito, Eudóxia seguiu mesmo assim, demonstrando a capacidade que tem para se adaptar às dificuldades e vencê-las!

Para encerrar com chave de ouro, Eudóxia interpretou a Grande Tarantella, do compositor americano de nascimento e brasileiro de alma Louis Moreau Gottschalk. Como o nome da peça já diz, foi um encerramento grandioso e triunfal de uma noite que certamente ficará na história da pequena cidade de Paraguaçu Paulista, no interior de São Paulo! Ver a reação do público, de emoção e perplexidade, a cada demonstração de virtuosismo técnico por parte de Eudóxia foi uma das melhores parte da noite!

Eudóxia é membro da Academia Brasileira de Música desde 1989.

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Davi Valukas

Davi Samuel Valukas Lopes nasceu no dia 06 de setembro de 1985, na cidade de Araraquara, no interior paulista. Filho de um trombonista, começou os estudos musicais no saxofone em 1996 na Congregação Cristã no Brasil, onde toca até os dias de hoje. Tornou-se instrutor musical na mesma igreja no ano de 2002, até o ano de 2016. Estudou piano clássico por quatro anos e guitarra blues por um ano. Ministrou oficinas de musicalização de 2009 a 2012 pela Secretaria Municipal de Cultura de Araraquara. Foi um dos fundadores de um projeto de musicalização infantil na periferia da cidade, no Jd. das Hortências, chamado Família Afro Son. Trabalhou na composição e interpretação da trilha sonora de espetáculos de dança junto com outros músicos de Araraquara. Mudou-se para Uberlândia, no Triângulo Mineiro, em 2012. Na cidade, ministrou aulas de saxofone e teoria musical, tocou um ano e meio na Jazz Band Ladário Teixeira e atuou na área de Treinamento e Educação Corporativa de 2016 a 2019. Monarquista convicto, é co-fundador do Círculo Monárquico de Uberlândia. É graduado em Gestão de Recursos Humanos e pós-graduado em Docência.

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